HORA DE DISCUTIR O MARKETING POLÍTICO.
Para começar a semana pós-feriadão, queria agradecer a todos os que deixaram suas opiniões sobre as estratégias dos candidatos à presidência.

Também publico hoje o link para uma interessante entrevista com o consultor de marketing de Lula, João Santana. A entrevista (dividida em 2 partes), foi concedida ao jornalista Fernando Rodrigues.

Entre os assuntos em destaque, há o comentário de João Santana sobre a tarefa do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, como comentarista das estratégias eleitorais dos candidatos, através do seu "ex-blog". Santana elogia o seu desempenho e afirma que César Maia tentou preencher uma lacuna existente no Brasil, que é a da figura do crítico do marketing político.

Concordo parcialmente com sua opinião: acredito que há poucos que se dispõem a esse comentário crítico, mas não é um espaço em branco. Há vários profissionais que têm se expressado nos meios de comunicação, seja através de entrevistas, seja através de artigos, avaliando, comentando criticamente as ações de marketing político, inclusive com o distanciamento necessário ao assunto.

Cito como principal exemplo, nosso colega, o consultor e professor Gaudêncio Torquato, cujos artigos semanais são uma rica fonte sobre o tema (inclusive, no post abaixo, o novo texto desta semana).

Em síntese: este foi o ano em que o marketing político teve sua exposição analítica mais intensa.

Comentário feito, ficam então as duas dicas de leitura:

• Entrevista de João Santana para Fernando Rodrigues. Basta clicar

• Novo texto de Gaudêncio Torquato, "As Razões de Uma Vitória", no post abaixo.

Boa semana,
Gil Castillo
(gil@marketingpolitico.com.br)
As Razões de Uma Vitória
por Gaudêncio Torquato

Luiz Inácio Lula da Silva ganhou o direito de sentar por mais quatro anos na cadeira presidencial porque teve melhor desempenho nos quatro meses de campanha eleitoral. O presidente conhece bem, como afirma, “a alma do povo”. Fosse em um país anglo-saxão ou profundamente identificado com a ética protestante, Lula não teria sobrevivido às graves denúncias que, ao longo do último ano, corroeram a imagem do governo. Mas a “alma brasileira” é leniente e compreensiva ante a dualidade de conceitos como riqueza e miséria, virtude e crime, honestidade e corrupção, generosidade e horror. Por outro lado, o eleitorado brasileiro prefere o discurso que fala para o bolso do que a peroração para as mentes. Os valores éticos (espirituais), que emergiram do túnel dos mensaleiros e desaguaram nos dutos do dossiêgate, perderam para os valores do bolso (materiais). Economia estabilizada, inflação controlada, real valorizado, poder de compra preservado, beneficiando todos os conjuntos sociais, e o Bolsa-Família expandido, melhorando a situação das classes D e E, foram mais fortes que a pergunta: “de onde veio o dinheiro para comprar o falso dossiê?”
Lula teve melhor desempenho no plano do discurso. Disse para o povo o que ele queria ouvir. As falas cheias de metáforas e imagens populares se somaram ao desfile interminável de feitos do governo e entraram com facilidade na cachola das massas. O petista saiu-se igualmente bem no âmbito do turbilhão de denúncias. Martelou a resposta de que, em seu governo, nada é empurrado para debaixo do tapete. Colou. Para fechar o circuito de forças a seu favor, Lula contou com o poder da caneta. Quem exerce o mando no poder executivo federal e nos governos estaduais tem chances maiores de se eleger. O fator organizativo também ajudou Luiz Inácio. Ele fez bons comícios, correu o Brasil, jogou-se para as massas. Pelo lado tucano, os aliados se apartaram em muitos estados. Faltou um plano estratégico; a agenda de rua do candidato foi pobre. O programa de TV foi visivelmente ruim, sem eixos, disperso e monótono, as ações táticas foram limitadas e os recursos escassos. Mas sobrou desorganização.
Para arrematar a boa performance, Lula deu, no segundo turno, um nocaute técnico em Alckmin com o terrorismo da “privataria”. Ganhou os eleitores de Heloísa Helena e de Cristovam Buarque, além de avançar sobre fortes contingentes das classes médias, que deixaram o espaço antes reservado ao tucano. Lula ganhou a eleição, mas iniciará um segundo mandato sob o signo da suspeita. É evidente que o tal “terceiro turno”, a desestabilização de Lula pela via da Justiça, não tem condição de prosperar. O voto popular e a ampla maioria conseguida legitimam o candidato e não haveria força moral nos tribunais para derrubá-lo. Luiz Inácio terá à disposição um amplo cordão de apoios, a partir do engajamento de 18 governadores, uma base de cerca de 370 deputados e uma boa bancada no Senado. Na Câmara Alta, apesar do oposicionismo formado pelas alas de senadores do PFL e do PSDB, que poderão, com seu número, formalizar pedidos de CPIs, Lula enfrentará alguma dificuldade, mas nada que possa prejudicar a governabilidade. Procurará formar um governo com menos petistas e ampliará os espaços do PMDB. Focará o governo no alvo desenvolvimentista, como forma de retomar o crescimento e atender às demandas do empresariado. Depois de algum tempo, emergirá a pressão de movimentos sociais, como o MST. Terá fortes dores de cabeça. O movimento desejará tirar o atraso. E passará por cima das querelas internas dentro do PT, partido que será despaulistanizado e mais nordestizinado, a partir da influência de Jaques Wagner e Marcelo Déda, os novos governadores da Bahia e de Sergipe.
A reeleição de Lula marca, ainda, a abertura de um ciclo de reformas, a começar pela reforma política. Não há mais condição de o País conviver com a desorganização do quadro partidário. Certamente, o estatuto da fidelidade partidária, ao lado de um intenso debate sobre o sistema de voto, deverá abrir o capítulo reformista, a ganhar continuidade com a discussão das questões tributária e previdenciária. Que Lula deseja reinserir a política itamaratyana nos eixos do primeiro mundo, disso não há dúvida. Porém sem perder de vista seus parceiros tradicionais. Até aqui, dá para se enxergar a paisagem com alguma clareza. Para olhar mais adiante, é preciso saber qual será a moldura internacional, a partir das condições da economia norte-americana. A lupa consegue visualizar, ainda, um presidente mais modesto, menos arrogante e profundamente interessado em limpar os restos de lama que cobrem sua imagem. Por isso, continuará a pedir a punição aos culpados, doa a quem doer, como costuma repetir.

∑ Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.



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