DICA DE LEITURA
Antes de sermos profissionais de marketing, cientistas políticos, jornalistas, simpatizantes do assunto ou partidários de qualquer um dos lados, somos brasileiros. Situação que merece ser representada pelo sentimento maior de vermos nosso país trilhando os caminhos certos. O texto que postei abaixo, como uma carta aberta aos candidatos, expressa esse sentimento da maneira certeira, como só ou autor - Gaudêncio Torquato -, poderia escrever. Boa leitura.

Gil Castillo
(gil@marketingpolitico.com.br)
Senhores Candidatos
por Gaudêncio Torquato

O eleitorado irá às urnas profundamente dividido e com a convicção de que o voto, principal arma da democracia, mesmo legitimando uma de V. Exas. como mandatário da Nação, não deverá ser endosso para a continuidade do descalabro que corrompe o tecido político e desmoraliza as instituições. O Brasil chegou ao fundo do poço em matéria de mercantilismo político, praticado todos os dias no balcão de recompensas que paga indivíduos sem compromissos com o ideal coletivo. Essa é a raiz da crise que esfrangalha a República. A indignidade na política multiplica os trânsfugas morais que constroem feudos e capitanias dentro de um Estado intensamente partidarizado. A conseqüência se faz ver na mediocridade de cortes servis, nos bolsões de lenocínio que arrebentam os cofres públicos e nas artimanhas que juntam, no mesmo covil, dirigentes, burocratas corruptos e empresários espertalhões.

O vitorioso deve ter clara noção de que o País precisa voltar a conviver com o respeito e a confiança nas instituições e a solidariedade entre classes será arrastado pelo turbilhão da crise intermitente, a que se deve dar um basta sob pena de aumentarmos o fosso entre sociedade e sistema político. Conscientizem-se de que a confiança nos Poderes constituídos se assenta, primeiro, no respeito dos mandatários às funções para as quais foram investidos, o que exige resgatar o conceito de política como missão, não como profissão. Dignificar o mandato conceito é priorizar o ideal coletivo. Não fazer da coisa pública um negócio particular. É bom lembrar, o patriotismo é a vitamina das nações. Urge, portanto, resgatar a comunhão das esperanças perdidas, conclamar classes e grupos a acreditar que teremos, sim, um amanhã melhor que o hoje. Não há maneira mais torpe de servir à Pátria do que pregar a desunião de seus filhos. Atentem, essa tem sido uma nota lúgubre destes tempos virulentos.

Sr. candidato Luiz Inácio, a recorrência de que a elite paulista odeia o resto do País e de que a oposição só olha para o Sul e o Sudeste não contribui em nada para a construção de uma Pátria forte, indivisível, e de uma coletividade nacional que anseia por harmonia e solidariedade. O caráter nacional repele conflitos que envolvam gentes. Prefere impregnar-se da seiva de confraternização. Disseminar ódio entre classes, espalhar que regiões discriminam outras e usar o boato como forma de cooptação eleitoral são pérfidas maquinações de um vale-tudo que se esperava eliminado da política. A desgastada luta de classes morreu e está sepultada no cemitério do socialismo revolucionário. Não há motivo para ressuscitá-la, até porque V. Exa. deverá ser o próximo Presidente da República.

Sr. candidato Geraldo Alckmin, V. Exa. deveria ter defendido a idéia de um Estado menor, sem tropas partidárias de ocupação, sem gorduras, sem espetacularização, eficaz e produtivo. E dizer que a privatização das telecomunicações fez o País abrir os caminhos da modernização, sendo hoje exemplo da comunicação rápida, acessível e abrangente, bastando anotar o número de celulares, quase 96 milhões. Mostrar que a privatização da Vale do Rio Doce aumentou a capacidade de produção de 82 milhões de toneladas de minério de ferro para um volume estimado em 270 milhões de toneladas, fazendo, ainda, a empresa atuar em 21 países, quando, como estatal, estava apenas em cinco. Com a compra da INCO, mineradora canadense de níquel, a Vale tornou-se a segunda maior mineradora do mundo. O seu erro foi não demonstrar maior conhecimento da realidade nacional, com exposição densa de propostas para a Previdência, saúde, segurança pública, emprego e renda, crescimento do PIB, indo além da intenção consubstanciada nas expressões “vamos melhorar, vamos expandir, vamos investir pesado”.

Srs. candidatos, a meta de domínio da inflação e da economia estável deve ser preservada. Mas o País precisa expandir o crescimento, aumentar a oferta de empregos e exigir contrapartidas viáveis para os programas assistencialistas, sob pena de continuarmos a ver o Bolsa-Família como instrumento de manutenção da miséria, em vez de mecanismo de promoção social. Decidam dar um basta na escalada de impostos, fazendo mais gente pagar, mas pagar menos. Enxuguem a estrutura do Estado. Presidente Lula, tire ervas daninhas, quadros incompetentes. Forme uma grande equipe de técnicos. Aceite o conselho do opositor e diminua os 35 ministérios para 20. Transforme a educação em prioridade máxima, começando com o reforço no ensino fundamental. Essa é a viga mestra do futuro. Divida com os Estados a responsabilidade sobre a segurança, com estruturas aparelhadas, quadros motivados, sistemas de prevenção. Antes de construir novas unidades hospitalares, faça check-up total nas existentes, melhorando o atendimento. Depois do pleito, continuem a apurar as denúncias. Eliminem os preconceitos. Ao vitorioso, que dignifique o cargo. Não jogue brasileiros contra brasileiros. Seja humilde. Governe sem ódio. “Para o bem do povo e felicidade geral da Nação.”

∑ Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.



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