Que venha o 2º turno!!
No post abaixo, o texto "A Pátria de Todos Nós", de Gaudêncio Torquato. Sem comentários...

Abraços,

Gil Castillo
(gil@marketingpolitico.com.br)
A Pátria de Todos Nós
por Gaudêncio Torquato

O Brasil participará do segundo turno eleitoral mais violento de sua História. Estarão em jogo, como se sabe, não apenas escolhas pessoais, amparadas nas qualidades e nos valores de candidatos, mas uma avaliação sobre o presente e o futuro de nossa democracia. Pela lógica, o eleitorado deveria agregar à escolha um juízo de valor sobre os eventos do último ano político, opinando sobre o uso da máquina pública por candidatos e as ilegalidades que se multiplicaram na esfera eleitoral por força do estatuto da reeleição, culminando com um olhar sobre a gigantesca delegacia de polícia em que se transformou o País. Mas a percepção sobre o campo de abrangência do voto não atingirá a sociedade por igual. Massas eleitorais ingênuas, de votos domesticados por candidatos que degradam o espírito da política, podem ganhar a disputa do cabo-de-guerra, mantendo o País no curral da velha política. Não podemos ter ilusões. Afinal, não se transforma voto alienado em voto consciente da noite para o dia. Significa que a maior parte dos 70% dos votos da base da pirâmide social continua a acampar no deserto das crenças, enquanto o voto consciente, com forte penetração nos domínios dos 25% de eleitores do meio social e nos 5% do topo, não terá forças para furar o bloqueio do passado. Arrematando o desenho, resta pincelar que o País cindido em duas bandas é obra de irresponsabilidade, demagogia e messianismo. Por três anos e nove meses, insistente cantilena abriu crateras entre classes. Golpes das elites, governo de pobres contra ricos foram cantos recorrentes, enquanto corpos das elites partidárias – principalmente do PT –, irmanados a abutres, patetas e “aloprados”, passaram a povoar o mais fétido antro da política. Profunda dissonância cognitiva se instalou no meio da sociedade. Com esta roupagem, chegaremos ao dia 29 de outubro. O amanhã se apresenta pleno de inquietações.

Avoluma-se a impressão de que o sufrágio alienado foi sacudido pelo dossiegate nas proximidades do pleito de 1º de outubro. O tanto-faz-como-tanto-fez, que explica as malandragens dos “meninos” de Lula, indicação de que tudo continuaria como dantes no reino da esculhambação, energizou parcela do eleitorado. Não se espere, porém, que a próxima legislatura se livre de gente acostumada a flexibilizar espinhas diante de sacolas lucrativas. Não se espere mudança nos pilares centrais de nossa democracia, caracterizados pela híbrida composição de presidencialismo, federalismo, multipartidarismo, bicameralismo, voto uninominal, voto proporcional, voto majoritário e desproporção entre representações eleitorais dos Estados. Moldura mais capenga quando se colocam adjetivos nos sistemas, algo como presidencialismo imperial, Poder Executivo legislador, Poder Legislativo manobrado, Federação de entes desarmônicos entre si.

Não se descarte, porém, a hipótese de correção de alguns desses eixos, a partir da própria discussão sobre a natureza do regime caso o País esbarre na ingovernabilidade. Como ficará o presidencialismo diante da frouxidão moral que tende a solapar ainda mais as instituições? O desenho aponta para coisas como ondas de suspeição corroendo a sobra de identidade do PT, expansão do balcão político em novo mandato de Lula, o jogo duplo do PMDB, a mobilização de certos movimentos sociais para escudar o governo e o clima pesado do “salve-se quem puder”. A vitória de candidatos implicados em escândalos não deve ser passaporte para que estuprem a justiça. Mas os juízes do TSE já se mostram definitivamente comprometidos com a primeira parte da máxima do Barão de Itararé: “Ou restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos.”

A política chegou ao fundo do poço em matéria de moral. Mas não morreu a esperança de nascer uma flor no pântano. Como dizia o sábio Zaratustra, há muita lama no mundo, mas nem por isso o mundo é um monstro que chafurda na lama. Se a dignidade tem dificuldade para aparecer nas janelas do Parlamento, que venha pela porta de frente do Judiciário. Ou que ecoe das galerias das instituições sociais.

Estas reflexões são oportunas no instante em que o eleitorado começa a avaliar os perfis de Lula e Alckmin. A força do voto pode oxigenar o ar pútrido da política. Se o cidadão souber manejá-lo como arma de defesa, estará melhorando seu projeto de vida. Que o eleitor se esforce para escolher aquele que possa dignificar a Pátria, nos termos que o velho Rui Barbosa, sempre ele, costumava pregar: “A pátria forte, a pátria antiga, a pátria unida, a pátria vasta, a pátria indissolúvel, com a sua ingênita vibração nas veias e o seu lugar de outrora entre as nações vizinhas”.

* Gaudêncio Torquato, jornalista, é consultor político e professor titular da USP.




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