PARA FINALIZAR A SEMANA

Amigos, postei abaixo um novo artigo de Gaudêncio Torquato. Trata-se de uma excelente análise sobre a corrida presidencial. É leitura obrigatória.
Abraços e bom final de semana.
O PÁRA-QUEDISTA E O ALPINISTA
Por Gaudêncio Torquato

Quinto Túlio Cícero, em carta ao irmão, Marco Túlio Cícero, candidato ao Consulado no ano 64 antes de Cristo, aconselhava-o a pensar, todos os dias, nas seguintes perguntas: “Que cidade é essa? Que cargo você pleiteia? Quem é você?” E sugeria a resposta: “Sou um homem novo, quero ser cônsul, aqui é Roma”. O homem novo expressava o perfil de resistência aos preconceitos dos velhos políticos; o cônsul era o cargo público mais elevado, algo como o presidente da República; e Roma designava tanto a capital quanto um país de vasta extensão que dominava o mundo mediterrâneo. Aplicada com rigor, a lição daquele assessor, a quem se atribui o primeiro manual de marketing político da História, daria nova tintura ao cenário eleitoral brasileiro, no momento em que os atores começam a movimentar-se no palco.
Não há motivos para acreditar que as questões sugeridas ao célebre tribuno Cícero balizem a campanha eleitoral. Assistiremos, mais uma vez, a uma querela entre perfis e estilos, não a um confronto de idéias. É bastante previsível a polarização entre o candidato petista e o candidato tucano, o primeiro ancorado na identificação com o povo pobre, o segundo transitando no meio social. Lula só amargará derrota se as margens sociais forem convencidas de que esteve à frente de uma rede criminosa. Se a percepção é de que esteve apenas ao lado (e não sabia de nada), continuará a ter o voto dos mais pobres. A convicção de que a ladroagem é geral, mas “Lula é um dos nossos” – eis o signo que mexe com a cabeça das massas. Funciona como habeas-corpus para excluir o ex-metalúrgico da teia de corrupção. Poderá ser vitorioso, até no primeiro turno, se a taxa de infelicidade nacional cair verticalmente com vitória brasileira (catártica) na Copa do Mundo.
Geraldo Alckmin tem chances? Tem, caso se comprovem algumas hipóteses: a indignação do meio social chegará às margens, arrebatando ânimos; os correligionários José Serra e Aécio Neves vestirem a camisa geraldista; o voto racional do Sudeste lhe dar expressiva maioria; o voto emocional do Nordeste ser, na última hora, induzido por caciques e parcela escapará da confraria lulista; o casamento entre pefelistas e tucanos gerará frutos sadios; os desajustes entre apoiadores serão rapidamente equacionados; a campanha ser bem organizada e a comunicação, de tão eficiente, fará a diferença.
Analisemos, agora, os colégios eleitorais. No Triângulo das Bermudas – formado por São Paulo (27,3 milhões de votos), Minas Gerais (13,3 milhões) e Rio de Janeiro (10,6 milhões) –, que abriga 42% do eleitorado nacional, Alckmin tem o maior palanque. As principais lideranças nos três Estados – José Serra (SP), Aécio Neves (MG), Anthony Garotinho, Sérgio Cabral, Eduardo Paes e César Maia (RJ) – estão penduradas no bico tucano. Mas o truco é o jogo do momento. Suspeitas recaem sobre Serra e Aécio, potenciais candidatos em 2010 à Presidência da República. Há quem garanta que não teriam interesse na vitória de seu candidato, o que desarrumaria a projeção de uma maioria geraldista em torno de 20% sobre o eleitorado de 51,2 milhões dos três Estados. Conquistando no Sudeste 10 milhões de votos a mais do que Lula, o ex-governador paulista poderá suportar uma maioria petista no Nordeste, até por volta de 10 milhões de votos, algo como 30% sobre 34 milhões de eleitores. Não será fácil. Para tanto a força pefelista no quarto maior colégio eleitoral do País, a Bahia, com cerca de 9 milhões de votos, e boa performance em Pernambuco, terra do vice José Jorge, poderiam diminuir a vantagem de Lula na região.
O voto nordestino é volátil. O poder dos caciques influencia a decisão. A roda desse poder acompanhará tendências de crescimento e queda dos candidatos. Na primeira semana de setembro, a bússola eleitoral estará apontando o Norte. Já no Sul, com 15% dos votos, as duas bandas se equilibrarão, com o possível apoio de Rigotto (RS) a Alckmin, o voto de Requião (PR) em Lula e o voto ainda não definido de Luiz Henrique (SC).
Imagens possíveis da escalada na montanha: Lula como pára-quedista e Alckmin como alpinista, um muito rápido, outro bem muito lento. Nenhum estará imune ao perigo no momento da chegada.

∑ Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.



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